iFood contratou agências para desmobilizar greves de entregadores

iFood contratou duas agências de publicidade para fazer campanhas e desmobilizar greves de entregadores em 2020 e 2021, segundo a Agência Pública. Além de desvirtuar a pauta do movimento, a ação chegou a infiltrar pessoas em protestos de rua.

De acordo com a reportagem divulgada hoje (04), as empresas de publicidade Benjamim Comunicação e Social Qi (SQi) utilizaram as redes sociais para criar uma narrativa para que as pessoas entendessem que, na verdade, os entregadores estavam demandando vacinação prioritária, e não aumento das taxas das corridas nos apps (reivindicação real).

Para tentar mudar a percepção tanto de clientes quanto dos próprios trabalhadores, as agências de publicidade criaram páginas como “Não Breca meu Trampo” e “Garfo na Caveira” no Facebook. Enquanto a primeira promovia um discurso de liberdade para entregadores de app, a segunda divulgava memes e piadas relacionadas a esse universo.

“As páginas foram feitas para interagir com os entregadores, para entender eles (sic). Mas também para ajudar o iFood no seguinte sentido: as pessoas querem fazer greve, mas o iFood não quer greve, então, ao invés de cancelar a manifestação e soltar um monte de fake news, nós usávamos a inteligência [digital] para entender como é que poderíamos esvaziar a narrativa da greve”, explicou uma pessoa envolvida no projeto.

“O objetivo era suavizar o impacto das greves e desnortear a mobilização dos entregadores”, acrescentou outra fonte ouvida pela Pública.

Modus operandi

Para desmobilizar uma greve em 2021, os profissionais envolvidos no projeto fizeram publicações nas redes sociais acusando os grevistas de “fazer politicagem”. As páginas também promoviam argumentos contrários a projetos de lei que tinham como objetivo regulamentar o trabalho dos entregadores.

Para tentar “engrossar o coro”, as empresas contratadas pelo iFood criavam perfis falsos e pagavam supostos entregadores para defender que a luta da classe era “contra o governo”, e não contra os aplicativos.

Em um dos vídeos, um suposto trabalhador diz que várias pessoas estavam no ramo porque haviam perdido o emprego e que se não fossem os apps estariam “passando fome”. Além das mensagens e das publicações contra os movimentos grevistas, as páginas promoviam críticas contra os apps rivais do iFood, como Uber Eats e Rappi.

https://www.facebook.com/plugins/video.php?height=476&href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fnaobrecameutrampo%2Fvideos%2F353325132868493%2F&show_text=false&width=267&t=0

Outra ação coordenada colocou um infiltrado em um protesto. Em abril de 2021, uma paralisação dos entregadores contou com a presença de um homem que trabalhava em uma das agências de publicidade.

Segurando um cartaz escrito “vacina pros entregadores de aplicativo já”, ele distribuiu adesivos para as pessoas que estavam no local e mobilizou a defesa da imunização prioritária. Documentos obtidos pela Pública revelam que o caso foi considerado um sucesso, já que vários veículos da imprensa noticiaram que a principal pauta dos entregadores era a vacinação, e não o aumento das tarifas do app.

Outro lado

A Benjamin Comunicação disse, em nota enviada à Pública, que foi contratada pelo iFood para realizar “pesquisa de opinião e monitoramento de postagens nas redes sociais e tem em seu escopo ouvir assuntos ligados ao ecossistema do food delivery”.

A empresa informou que não aprovou junto ao iFood ideias ou campanhas propostas pela SQi, que foi subcontratada em 2021. A companhia também salientou que “não concorda com práticas como produção de fake news, uso de bots ou perfis falsos para interações ou compra de likes e seguidores, sempre realizando seu trabalho dentro da legalidade”.

A SQi informou, também por nota, que é normal no mercado fazer propostas tanto para clientes atuais quanto em prospecção sugerindo ações que respeitem “os limites legais”. Assim como a Benjamin Comunicação, a SQi se recusou a comentar trechos específicos de documentos, conversas e relatórios divulgados pela Pública.

O iFood indicou que não comentaria os documentos divulgados porque não teve acesso a eles, portanto “não pode opinar sobre o conteúdo”. Outro trecho do comunicado explica que “A atuação do iFood nas redes sociais se dá estritamente dentro da legalidade, não compactuando com o uso de perfis falsos, geração de informações falsas, automação de publicações por uso de robôs ou compra de seguidores”.
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